16:11As verdades de Newton Freire-Maia

Chegou às livrarias o livro “Verdade da Ciência e Outras Verdades” (Unesp – Sociedade Brasileira de Genética, 312 págs, R$ 40,00), do geneticista Newton Freire-Maia, um mineiro de Boa Esperança que nasceu em 1918 e em 1951 se fixou em Curitiba, onde morreu em 2003. Pioneiro na área, neste livro, segundo resenha de Carlos Orsi Martinho publicado na revista Capital,  Freire-Maia “busca oferecer ao leigo uma introdução à filosofia da ciência e ao método científico”, mas funciona mais como testamento pessoal. O tema mais contundente desta obra escrita há sete anos é o conflito entre ciência e religião. “Para Freire-Maia a convivência entre os campos é possível, desde que um não tente avançar no território que, por direito, cabe ao outro”, informa Martinho. Abaixo, uma entrevista concedida em 1988 pelo cientista a Oswaldo Frota-Pessoa (Departamento de Biologia, USP), Darcy Fontoura de Almeida (Instituto de Biofísica, UFRJ), Alicia Ivanissevich e Myriam Regina Del Vecchio (Ciência Hoje):

Aos 15 anos, Newton Freire-Maia viu a radiografia do abdome de um amigo doente. A imagem, ainda nítida em sua memória, o impressionou de tal forma que, desde então, não parou mais de estudar: do tubo digestivo às interrogações sobre a origem da vida; da histamina e colóides às indagações da alma. Ainda jovem, reunia-se com os amigos da pensão onde morava, no Rio de Janeiro, para ler Voltaire e discutir política. A sala de aula, no entanto, não era o seu forte. Mas a rebeldia contra a educação formal não conseguiu apagar sua obstinada vocação para a ciência. Para sobreviver, exerceu funções no mínimo curiosas: trabalhou como funcionário de uma companhia de seguros, foi guarda sanitário e escreveu a história de Boa Esperança (MG), sua cidade natal. A partir de 1980, sem alterar seus projetos de pesquisa, suas antigas convicções sobre teorias científicas e sua posição política, introduziu a religião em sua vida. Esse processo culminou na publicação do livro Criação e evolução, onde procura mostrar a possibilidade de convivência entre ciência e religião, sem que uma ofenda a outra. Hoje, com mais de 160 trabalhos publicados, Newton Freire-Maia é um dos expoentes da genética brasileira, responsável pela formação de inúmeros novos pesquisadores. Aos 70 anos, faz planos para o futuro: acabar sua autobiografia, iniciada há dez anos, e um livro sobre filosofia da ciência. Que não se espante o leitor dessa autobiografia ao encontrar, além do cientista, um homem apaixonado por cinema, rádio e literatura! Na juventude, escreveu roteiros para filmes que não se realizaram e crônicas sob os heterônimos de Guedes, funcionário público de vida pacata, e Sílvio Ricardo, jovem estróina e contestatário.

Qual é o sentimento de alguém que chega aos 70 anos tão celebrado por seu trabalho, por suas realizações, pela sua vida?

Passei muito tempo da minha vida achando que quem tinha 20 anos a mais do que eu era velho. Julguei pessoas de 40, 60 anos pessoas velhas. Hoje estou com 70 anos e, por incrível que pareça, não me sinto velho. Antigamente, as pessoas envelheciam mais cedo. As diferenças entre as gerações eram mínimas. Quando penso no meu bisavô e avô paternos, percebo que eles eram praticamente iguais. Do meu avô para o meu pai, no entanto, já houve uma mudança substancial. Não só na maneira de vestir, mas principalmente na maneira de pensar. Considero o meu pai um homem moderno. Mas o pai dele era um homem à antiga. Vejo mudanças também entre a geração do meu pai e a minha. E o que dizer das diferenças entre mim e os meus filhos? Certamente eles me acham velho. Já fui chamado de formalista, moralista, conservador. Eu, que já tentei botar fogo no mundo, passei a ser, para muitos jovens, um bombeiro.

A sua família é de Minas Gerais?

Sim. Nasci em Boa Esperança, que fica ao norte da mesopotâmia formada pelos rios Grande e Sapucaí. Há alguns anos construíram uma represa na região. A cidade, no entanto, não foi destruída; a represa aproximou-se dela, formando um belíssimo lago com ondas.

E a sua alma é também um lago com ondas?

Hoje, apesar de suaves, ainda existem ondas na minha alma. Nos velhos tempos, as maiores foram as preocupações políticas. Eu era e ainda sou um homem de esquerda. Houve um período da minha vida em que fui simpatizante comunista. Quando ainda era menino, meu pai assumiu a Prefeitura da cidade. Minha família apoiava a Revolução de 30. Éramos então revolucionários. Uma revolução que pretendeu mudar alguma coisa, mas que não conseguiu modificar coisa alguma, porque foi engolfada por sua facção conservadora. No fundo, queríamos mudar o presidente da República.

Alguns anos depois tive um surto de interesse pelo integralismo — que durou uns três ou quatro meses — e cheguei mesmo a usar alguns jargões clássicos: “Precisamos livrar o Brasil dos capitalistas judeus internacionais!” Vejam a cretinice da proposição! Quando pude conhecer realmente as bandeiras defendidas pelo integralismo, através de uma carta do líder da região, José Vieira de Mendonça – pai do atual ministro das Minas e Energia, Aureliano Chaves – perdi o interesse.

Como foi a sua virada do integralismo para a esquerda?

Minha passagem pelo integralismo, como já disse, foi muito rápida. A partir de então, quando fui para Belo Horizonte, aos 18 anos, entrei num período de desorientação que durou quase dez anos. Os cientistas em geral têm vidas muito pacatas, ordenadas, orientadas. Tentei vários cursos, fui reprovado várias vezes, passei alguns anos sem fazer nada, querendo ser cientista, mas sem ter feito curso superior. Nesse período de desorientação percebi que estava me encaminhando para a esquerda.

E quais eram os sintomas?

Comecei a escrever poesia, e a tônica era de esquerda. Minhas conversas com os amigos eram de esquerda. Eu detestava o nazismo. Fiquei em Belo Horizonte até 1938; em fevereiro de 1939, às vésperas do carnaval, fui para o Rio de Janeiro. Vê se isso é hora de chegar no Rio de Janeiro para ser cientista! Acabei caindo na folia e logo depois comecei a namorar uma carioca. Isso durou meses e meses. Ela morava no Méier, e eu tinha de pegar o trem da Central para visitá-la. Aproveitava então para estudar no caminho. Lia sobre filosofia, colóides, histamina, choque anafilático, genética, literatura. Enfim, eu vivia numa confusão muito bem organizada.

Mas sem nenhuma preocupação com a educação formal?

Absolutamente. Não tinha coragem de enfrentar um curso superior. Mas fiquei conhecendo várias pessoas, como os professores Melo Leitão e André Dreyfus. Meu amor pela ciência havia começado muito antes, por volta dos 15 anos, quando vi pela primeira vez a radiografia do abdome de um amigo que estava com apendicite. O médico foi me mostrando as partes do tubo digestivo e eu me lembrei que havia estudado aquilo tudo no ginásio. Fiquei encantado. A primeira coisa que fiz ao sair do hospital foi pegar meu livro de história natural para estudar de novo o tubo digestivo. Por isso costumo dizer que o meu primeiro amor científico foi o tubo digestivo.

No ano seguinte tive acesso a um livro de biologia geral, de Rita Almir de Rialva, que ganhei de um professor durante um retiro espiritual. Foi então, aos 16 anos, que eu tomei conhecimento das leis de Mendel. Foi uma paixão violenta pelas leis da genética, a determinação do sexo, os cromossomos X e Y e aquela história toda. Em Belo Horizonte interessei-me pelo estudo dos colóides, da alergia e da histamina. Paralelamente, outros amores também se manifestaram: o rádio e o jornalismo. Cheguei até a fazer dois concursos para locutor.

Também escrevia artigos para jornais, freqüentava as redações; grande parte das matérias que eu fazia versava sobre ciência. Foi quando tive a idéia de escrever sob pseudônimo. Nunca tinha ouvido falar em Fernando Pessoa, mas as vezes escrevia sob o pseudônimo de Guedes. Guedes era um homem de 50 anos, funcionário público com filhos e netos, que reclamava da mulher. Eu tinha então uns 18 anos. Mais tarde escrevi usando o heterônimo de Sílvio Ricardo, um jovem estróina que não respeitava muito as convenções sociais e dizia coisas impróprias.

Fiquei no Rio dois anos, querendo ser cientista, sem nenhuma preparação. Tive um grande amigo lá, o doutor Carlos Luz, que chegou a ser presidente da República por um ou dois dias. Um golpe militar tirou-o da Presidência. O doutor Carlos Luz me apresentou um dia ao então ministro da Agricultura, pedindo apoio às minhas aspirações. O ministro me encaminhou para um concurso duríssimo, no qual fui vergonhosamente reprovado. Hoje eu dou graças a Deus. Que teria acontecido comigo se tivesse sido aprovado naquele concurso?

O doutor Luz não era também, naquela época, presidente da Caixa Econômica?

Sim. E era presidente da Companhia de Seguros Minas-Brasil também. Trabalhei na companhia por três meses. Vendo que não saía nada relacionado a ciência, voltei para Boa Esperança. Lá fiquei um ano. Nesse período, o prefeito da cidade, Joaquim Vilela – um grande amigo, vivo ainda hoje, com 92 anos – me ofereceu um emprego de guarda sanitário. Passei uns tempos exercendo essa nobre função, quando um dia, visitando o grupo escolar em que eu havia estudado durante seis anos, umas professoras me disseram: Temos um problema sério aqui: queremos ensinar a história da cidade para os meninos, mas não a conhecemos. Achei então que era hora de escrever a história de Boa Esperança. Conversei com o prefeito e ele aceitou a idéia. Passei meses escrevendo esse livrinho, que se chama Esboço histórico de Boa Esperança, relatando episódios desde 1795 até o dia em que colocaram o primeiro paralelepípedo na cidade.

Preocupado comigo, meu pai disse que eu precisava tomar um rumo na vida e que, se realmente desejava ser cientista, deveria enfrentar um curso superior. Fui para Alfenas, onde havia uma escola de farmácia e odontologia. Precisava ainda terminar o último ano do curso complementar (todo mundo fazia em dois anos; eu gastei quatro). O doutor Roque Tamburini, diretor da escola, me fez a proposta de ficar como regente do ginásio, cuidando dos meninos, enquanto completava o curso científico. Depois eu faria o vestibular para a escola de odontologia e me tornaria professor de seu colégio. Achei a oferta péssima, pois queria ser professor logo. Mas acabei ficando lá quatro anos, completando o científico e fazendo o curso de odontologia. Minha paixão, no entanto, era mesmo a genética. No fim, tudo deu certo, e eu sou muito grato ao doutor Roque, de quem sou amigo até hoje. Em 1943 consegui um dinheiro com meu pai para passar uma semana em São Paulo, onde o professor Theodosius Dobzhansky iria lecionar durante alguns meses. Assisti a algumas aulas dele e do professor André Dreyfus, no Departamento de Biologia da USP (Universidade de São Paulo).

Com o qual já tinha se encontrado no Rio…

Sim. Como queria trabalhar no laboratório do Dreyfus, pedi ao meu amigo Leal Prado que me conseguisse uma bolsa da Faculdade de Filosofia da USP — cujo diretor, na época, era o Dreyfus — para poder estagiar lá durante um mês. Finalmente, em 1945, pude passar um mês em São Paulo com uma suposta bolsa da Faculdade de Filosofia da USP. Foram dias maravilhosos para mim. Flutuava de prazer o tempo todo naquele ambiente tão gostoso.

No fim do mês, procurei o Dreyfus para receber o dinheiro da bolsa, pois tinha compromissos a pagar. Ele então perguntou o valor da bolsa, que era de 300 mil-réis. Imediatamente ele pegou seu talão de cheques e assinou a quantia. Percebi naquele momento que a bolsa tinha sido concedida por ele e não pela faculdade. Devo portanto ao Dreyfus essa minha estada em São Paulo. As vésperas da minha volta para Minas, ele me convidou para trabalhar no seu laboratório. Imaginem! Era o maior desejo da minha vida! Mas não pude aceitar: tinha que terminar o meu curso de odontologia. A Segunda Guerra já havia começado. Meu irmão Moacir tinha sido chamado para o Exército, e eu precisava de cuidar da minha mãe. Perguntei ao Dreyfus se o convite ficaria valendo para o ano seguinte e ele me respondeu: Na hora que você quiser. Concluí naquele momento que havia encontrado o meu caminho. Durante esse ano em Minas, enquanto terminava o curso de odontologia, dediquei-me muito ao estudo da genética. Quando voltei a São Paulo para trabalhar em pesquisa de citogenética de drosófilas, já tinha 28 anos. Comecei a fazer o que queria: pesquisar.

Que trabalhos realizou durante sua permanência em São Paulo?

Ao chegar a São Paulo, alguns amigos me convenceram a fazer o vestibular para o curso de história natural. Não esperava ser aprovado. Fiz dois anos de biologia geral, período em que fui aluno de Dreyfus e de dois moços mais jovens que eu: o Crodowaldo Pavan e o Antônio Brito da Cunha.

Meu contrato era para prestação de serviços técnicos, mas eu fazia pesquisa. Afinal, queria ser cientista! No fim do curso de biologia geral, houve uma alteração no meu contrato, que passou a incluir também serviços didáticos. Passei a lecionar a disciplina em que acabara de me formar. Nessa época começaram a me sondar para abrir um centro de ensino e pesquisa em Curitiba. Aceitei. Fui morar em Curitiba em abril de 1951, cinco anos depois da minha saída de Minas.

Em Curitiba, cederam-me o espaço do Departamento de Química para ali instalar a genética. Recebi uma verba para a compra de tudo que fosse necessário à instalação do laboratório. Comecei meus estudos sobre a variação cromossômica nas espécies domésticas de drosófilas. Passei anos praticamente só fazendo isso, até 1956. Mesmo depois, vários artigos foram publicados sobre o assunto. Convém lembrar que, um ano antes de ir para Curitiba, tinha lido um livro do Dahlberg sobre aspectos matemáticos da genética das populações humanas, que falava sobre casamentos consangüíneos. Tive a idéia, então, de fazer um levantamento da freqüência dos casamentos consangüíneos em São Paulo. Passei muito tempo visitando a cúria metropolitana, onde há um arquivo maravilhoso de batismos, casamentos é óbitos. Através desse arquivo obtive os primeiros dados brasileiros sobre casamentos consangüíneos desde o final do século XVIII. Tracei curvas de evolução das freqüências desses casamentos, não só na cidade de São Paulo em geral, mas em bairros específicos e em cidades do interior. A partir de então fiquei trabalhando com drosófilas e com casamentos consangüíneos. Ainda em São Paulo encontrei Harry Miller, diretor da Fundação Rockefeller, e comuniquei-lhe minha ida a Curitiba. Cheguei a comentar com ele que gostaria de obter auxilio da Fundação Rockefeller para a implantação do laboratório em Curitiba. Meses depois Miller me concedeu mil dólares para início de conversa. Quando viu o progresso do laboratório, ofereceu mais dinheiro. Obtivemos grande quantidade de material importado dos Estados Unidos. Em 1953, publiquei nos Estados Unidos meu primeiro trabalho sobre casamentos consangüíneos no Brasil.

Além de trabalho com pesquisa, chegou a lecionar na cidade de Curitiba?

Sim, afinal eu tinha ido para lá fundar um centro de ensino e pesquisa. Lecionava biologia geral, o que me tomava um certo tempo. O laboratório foi crescendo, crescendo, e todo mundo trabalhando com muito entusiasmo. Era um punhado de gente e eu dirigindo aquilo tudo. Há quem diga que eu era muito exigente, duro, e que, com o tempo, fui me tornando mais cordial, menos agressivo. Antigamente não podia ver dois de meus colaboradores conversando. Chegava perto deles e dizia: Quando vocês começarem a trabalhar, vão gostar muito.

E aquela luzinha que todo mundo tinha que acender e apagar ao chegar ao laboratório?

Pois é… Mandei colocar na porta da minha sala duas lâmpadas, uma verde, outra vermelha. Quando eu acendia a verde, queria dizer que qualquer pessoa podia entrar. Quando acendia a vermelha, era sinal de que não queria ser interrompido. Além disso, mandei instalar na minha mesa uma campainha que dava sinais para fora. Para cada membro do laboratório havia um código. Quando dava um determinado sinal, a pessoa tinha que me procurar para saber o que eu queria. Havia também um painel luminoso na entrada do laboratório com os nomes das pessoas que trabalhavam no local. Aquele que chegasse no laboratório deveria apertar um botão para dizer que estava presente. Era um livro-de-ponto luminoso. Em suma, eu era um chato. Depois melhorei muito…

Em que época foi para os Estados Unidos?

Miller vivia me oferecendo uma bolsa para o exterior. Eu tinha sido contratado pela Universidade do Paraná para dar aulas e fazer pesquisa. Ao fim de cada ano, sempre renovavam o meu contrato. Mas eu tinha um medo muito grande de que, ao voltar dos Estados Unidos, não pudesse retornar à universidade. Por isso relutei muito até aceitar. Finalmente, em 1956, fui com a minha família para a Universidade de Michigan. Tivemos que deixar nosso filho de apenas um ano no Brasil. Sob vários aspectos, esse ano nos Estados Unidos foi duro. O valor da bolsa era baixo e o salário que recebia do Paraná, irrisório. Quando voltamos a Curitiba, a situação econômica do país era péssima. Continuamos vivendo com dificuldade.

Desenvolveu algum trabalho nos Estados Unidos?

Não; a finalidade era estudar. Concentrei-me em genética médica e genética das populações humanas. Havia mais dois geneticistas brasileiros lá: o Francisco Salzano e o Oswaldo Frota-Pessoa.

Quando fui para Michigan, o Frota estava em Washington. Salzano chegou três meses depois de mim. Passei aquele ano estudando e acompanhando todos os cursos que podia. Lá comecei a preparar o projeto de minhas pesquisas sobre casamentos consangüíneos, que fui desenvolver no sul de Minas, logo que voltei ao Brasil.

Por que no sul de Minas?

Por vários motivos. Primeiro, porque lá havia grande número de brancos e negros, e eu queria estudar os dois. Segundo, porque a freqüência de casamentos consangüíneos na região era alta. Terceiro, porque queria começar pela zona rural, onde todos os fazendeiros eram meus amigos. A quarta vantagem era estar próximo de meus familiares, pois passávamos as férias em Boa Esperança e, enquanto descansavam, eu aproveitava para coletar dados. Fiz levantamentos com a minha equipe durante sete anos, sempre nos meses de férias. No início cometemos graves erros de análise. Não levamos muito em conta as variáveis sócio-econômicas. Cheguei a levar o Warwick Kerr a Curitiba para nos ajudar na análise dos dados.

Obtivemos resultados que não esperávamos: os negros que se casavam com consangüíneos eram mais pobres do que os que se casavam com não consangüíneos, acontecendo o contrário com os brancos. Esse dado nos levou a concluir que as dificuldades sócio-econômicas agravavam a situação dos filhos de consangüíneos negros e aliviavam a dos brancos. O pior de tudo é que esses dados, assim distorcidos, pareciam revelar uma carga mutacional maior nos negros do que nos brancos. Uma conclusão que não me agradava. Logo eu, que sou anti-racista, descobrir que os casamentos consangüíneos produziam efeitos muito mais drásticos nas famílias negras do que nas brancas! Um segundo levantamento, feito junto à população urbana, confirmou o efeito da consangüinidade maior nos negros do que nos brancos. Mas, apesar da minha desconformidade com os resultados, tivemos que publicar o trabalho.

Esse não é um caso em que a condição político-ideológica do pesquisador poderia interferir nos resultados científicos? Se a equipe que trabalhava não fosse anti-racista contentar-se-ia com as primeiras pesquisas e não pensaria mais no assunto…

Reconheço que o pesquisador é influenciado por sua ideologia. Mas o tema da consangüinidade era uma das minhas paixões e tinha planejado levar adiante a coleta de dados por mais alguns anos. De qualquer maneira, com os resultados obtidos até então, publicamos dois trabalhos na Dinamarca. Supúnhamos que a raça negra — não sabíamos por que motivos — teria acumulado mais mutações deletérias do que a branca.

Então foi um ato de rebeldia contra suas idéias e a favor da metodologia científica?

Foi contra a minha vontade, sinceramente. No terceiro ano da coleta de dados, quando já usava uma equipe feminina para fazer o trabalho, constatei que os resultados se inverteram. A carga genética alta aparecia nos casamentos consangüíneos de brancos, enquanto nos casamentos de negros a carga de mutações era mínima. Esses dados demonstravam que o povo era o mesmo e que o que estava atrapalhando nossa análise eram as variáveis sócio-econômicas.

Em 1970, viajei para a Europa para trabalhar na Organização Mundial de Saúde (OMS), na Suíça. Meu irmão Adhemar teve uma idéia genial: reunir os dados de analfabetismo da primeira pesquisa com os da segunda. Verificou que havia mais analfabetos entre os negros que se casavam com consangüíneos do que entre os que se casavam com não consangüíneos. Logo depois, Henrique Krieger, que regressara do Havaí, recomeçou a trabalhar conosco, fazendo análise de regressão múltipla dos dados, incluindo informações sobre o nível sócio-econômico do grupo em estudo. Adhemar publicou então sua análise, mostrando que a carga mutacional no sul de Minas deveria ser a mesma em negros e brancos, e que as diferenças verificadas nas pesquisas anteriores deveriam ser produto de variáveis sócio-econômicas concomitantes. Logo em seguida, Krieger, João Bosco Azevedo e eu publicamos um trabalho mais detalhado sobre o assunto, mostrando que a carga genética em brancos e negros era realmente a mesma. Então ficamos satisfeitos com os resultados. Brancos e negros, no sul de Minas, deveriam ter acumulado, na Europa e na África, a mesma quantidade de genes deletérios.

Após os trabalhos realizados em Minas sobre casamentos consangüíneos, que outras linhas de pesquisa desenvolveu na universidade?

A pesquisa sobre casamentos consangüíneos não se limitou ao sul de Minas. Foram feitos levantamentos em Curitiba, na cidade de Lapa (no interior do Paraná) e em outras regiões, inclusive Portugal, de onde veio boa parte dos brancos de Minas Gerais. Chegamos a levantar dados também em três comunidades de origem japonesa no Brasil.

Como começou a estudar as displasias ectodérmicas, pesquisa que o tornou — ao lado de sua colaboradora Marta Pinheiro — conhecido internacionalmente?

Eis a importância do acaso na vida do pesquisador! Durante três anos, lecionei genética médica na recém-criada Faculdade de Medicina de Londrina. Um dia propus aos estudantes que fizessem um estudo sobre qualquer assunto de interesse genético, incluindo fotografias, radiografias, exames laboratoriais. Então, os estudantes se espalharam pelo norte do Paraná e trouxeram um mundo de trabalhos, acompanhados de fotos, radiografias, exames de laboratório, uma beleza! Um trabalho que anexava a foto de dois irmãos sem mãos nem pés chamou especialmente minha atenção. Na época estava interessado em estudar malformações congênitas por ausências ósseas. Levei alguns anos para estudar essa família, que era de Maringá. Muitas das informações que o aluno havia trazido estavam erradas. Ao cabo de três anos o trabalho estava pronto, e eu o enviei a John Optiz para revisão. Ele acrescentou ao título do artigo a expressão displasia ectodérmica. Foi então que fiquei sabendo o que eram displasias ectodérmicas, afecções que, em combinações variadas, se caracterizam por distúrbios nos tecidos com origem ectodérmica: pêlos, dentes, unhas, glândulas sudoríparas etc.

Logo depois, na Suíça, tive oportunidade de estudar essas displasias na literatura médica. Aproveitei para fazer pesquisas na biblioteca da OMS e percebi que não existia uma definição para esse tipo de afecção, tampouco uma classificação. Verifiquei ainda algumas divergências entre autores: uns acreditavam que existia apenas uma displasia ectodérmica, enquanto outros falavam em duas, em duas com algumas variantes; outros ainda chegavam a admitir dez tipos diferentes. Era uma bela confusão!

Comecei a juntar os dados sobre os tipos existentes; inclusive o que eu havia descrito. Cheguei a 32! Propus então uma definição para as displasias ectodérmicas. Delimitei o grupo e publiquei um pequeno trabalho numa revista dinamarquesa, com uma definição e uma classificação. Era uma grande novidade!

Anos depois fiz um segundo levantamento, que incluía mais de 50 displasias ectodérmicas diferentes. Foi quando Marta Pinheiro começou a trabalhar comigo. Planejamos uma ampla revisão do assunto. Minha classificação das displasias ectodérmicas compreendia 11 grupos. Após uma tentativa frustrada de publicar 11 artigos, que tratariam isoladamente de cada grupo de displasias, decidimos escrever um livro, que foi publicado por uma editora de Nova York (Alan R. Liss, Inc.). Foi o primeiro livro no mundo sobre o assunto.

Devo dizer que o trabalho com Marta continua e que já descrevemos 16 novas displasias. O número de displasias conhecidas no mundo se aproxima de 155. Somos responsáveis pela descrição de 10% delas. Em meados de 1988 a mesma editora americana publicou o terceiro livro sobre as displasias ectodérmicas, com dois capítulos nossos.

O que levou o menino de Boa Esperança, que se recusava a seguir os cursos formais superiores, a se tornar um cientista célebre?

Certa vez um professor lembrou-me que eu teria dito que jamais estudaria crianças com defeitos graves, pois sofreria muito com isso. Tanto evitei que acabei me especializando no assunto. Acho importantíssima a vocação para a vida científica. E ela deve vir apoiada em muito trabalho. Não ter feito o curso médico formal não me impediu de estudar certos problemas médicos. Além disso, muitos dos meus trabalhos são feitos em equipe. Costumo dizer, brincando, que qualquer idiota pode fazer pesquisa. Mas ele tem que ter algumas qualidades; na verdade, um mundo de qualidades. O cientista deve ser inteligente, mas não precisa ser uma eminência; deve ser estudioso, mas não tem que ficar o dia inteiro com o livro na mão. Agora, ele tem que ser um bom trabalhador — a preguiça anula a inteligência — e deve, sobretudo, amar a pesquisa. Se por acaso o cientista não tiver bons conhecimentos em uma certa área, deve se associar a outro que o complete na sua deficiência. Mas o amor à ciência, esse nunca pode faltar.

O senhor nasceu em Minas, passou pelo Rio de Janeiro, esteve cinco anos em São Paulo, foi para o Paraná e esteve no exterior. Após essas passagens, ainda se considera mineiro?

A pergunta é muito interessante. Um dia eu disse: Já fui mineiro-mineiro, mineiro-carioca, mineiro-paulista e agora sou mineiro-paranaense. E me responderam: Muda a espécie, mas o gênero permanece firme! De fato, mudo, mas continuo o mesmo. No fundo, sou um mineirão…

Hoje, após ter feito 70 anos, quais os seus planos dentro da atividade científica?

São os mesmos que sempre tive, mas o meu ritmo de trabalho sofreu uma alteração há dez anos, quando me aposentei. Desde então, trabalho em geral só de manhã na universidade, onde pesquiso, redijo trabalhos científicos, escrevo cartas e dou aulas. Almoço em casa, descanso um pouco e, em seguida, vou para o meu escritório e escrevo livros. Agora estou terminando um sobre a filosofia da ciência vista por um biólogo e há dez anos estou escrevendo uma autobiografia.

O senhor se arriscaria a fazer uma análise sobre a perspectiva da genética brasileira? Com sua experiência, como vê a genética de hoje projetada para o futuro?

No Brasil, a genética é uma das ciências que mais se tem desenvolvido. Ela vinha caminhando passo a passo com a melhor genética internacional e continua a progredir muito dentro dos caminhos tradicionais. Por isso, fazemos nesse aspecto – embora em pequena escala — o que de melhor se faz lá fora. Nos últimos anos, no entanto, nossa situação comparativa piorou porque novas metodologias de ponta — apenas se iniciando entre nós — propiciaram avanços espetaculares, de que estamos muito longe. Ficamos para trás porque os outros passaram a correr mais depressa. Mas é com alegria que se vê que as novas metodologias já se implantam entre nós, o que permite que tenhamos um certo otimismo quanto ao desenvolvimento da nossa genética mais moderna. Infelizmente, por ser um país subdesenvolvido, o Brasil tem um governo subdesenvolvido, incapaz de compreender a importância de fazer com que a nossa ciência corra mais depressa também. Por isto, sob certo aspecto, a nossa ciência também é, em média, subdesenvolvida.

Por que muitos pesquisadores passam, na sua maturidade, a se interessar mais intensamente por filosofia da ciência?

Há cientistas que, com o tempo — uns mais cedo, outros mais tarde — se cansam de ser cientistas e vão fazer outras coisas. Perdem a inspiração e o gás e passam a realizar algo mais simples. O cientista que, depois de uma certa idade, passa a se interessar por filosofia da ciência e deixa de ser cientista, certamente não escolheu um caminho simples para trilhar. Mas — e nisto sou inflexível — ele não precisa deixar de ser pesquisador para se dedicar à filosofia da ciência. Realizar tal troca é como mudar de amor. A maior preocupação com a filosofia da ciência por parte de cientistas depois de certa idade nada mais é que o reflexo de sua maturidade intelectual. Mas o cientista não é um animal dotado de nicho ecológico muito estreito: sem deixar de ser cientista, ele pode também gostar de música, de artes plásticas, de futebol.

No meio dessa trajetória, o senhor se converteu ao catolicismo. Alguma vez suas pesquisas foram influenciadas por sua tendência religiosa?

Ciência e religião são duas coisas diferentes, mas que se tocam. A religião acumulou uma série de superstições ao longo dos séculos e vem daí o conflito entre as duas. Um conflito espúrio. Não é papel da religião dar explicações sobre como surgiram o universo, os seres vivos, a humanidade. A religião não pode dar explicações desse tipo. Esse é um problema científico. Mas, respondendo a pergunta: de fato, me tornei religioso. Foi um ato repentino, pois passei 26 anos da minha vida procurando a fé e ela só apareceu no momento em que fui sensível à graça de Deus. Essa minha virada não alterou meus projetos de pesquisa. As teorias científicas que aceitava são as mesmas em que acredito hoje. Aceito, por exemplo, a Teoria da Evolução, o que é algo escandaloso para um cristão tradicionalista.

Foi a partir de então que sentiu a necessidade de escrever o livro Criação e evolução, em que procura mostrar a possibilidade de convivência entre ciência e religião?

Essa convivência é possível desde que uma respeite a outra. O Vaticano não pode emitir opiniões sobre a origem do cosmo, da Terra e do homem com base na tradição religiosa. É preciso ter coragem de afirmar que a tradição religiosa está errada nesses pontos! Ela está impregnada de superstições e deve ser analisada do ponto de vista da mitologia. Um grande autor francês, especialista em mitos, tem uma frase muito bonita sobre isso: “O mito está pedindo para ser interpretado”. O mito não pode ser aceito ao pé da letra: ele pede interpretação. É essa a função do teólogo moderno: deixar de lado os erros científicos que os mitos carregam consigo e destacar sua mensagem religiosa.

Uma ideia sobre “As verdades de Newton Freire-Maia

  1. L.H. Bona Turra

    O professor Newton Freire-Maia é diamante raro em nossa UFPR e integra a galeria dos gênios do pensamento local, dentre os quais incluo meus extraordinários mestres Leo Barsotti (Álgebra Linear e Geometria Analítica), Adonai Sant`Anna (Cálculo Integral), Sansão Loureiro (Direito Constitucional), Francisco Muniz (Direito Civil), Marçal Justen (Direito Comercial), Virgílio Balestro (Língua Pottuguesa, Literatura, Latim) e Jonel Iurk (Matemática, Xadrez).

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