22:45Você já experimentou mescalina?

Você já experimentou mescalina? – o azulejo do banheiro tremia como uma luz violácea, e na periferia da minha visão havia um arco-íris que se curvava para fora do horizonte do azulejo. Bastava fechar os olhos e uma chuva de veludo vermelho como a cortina no boxe do chuveiro perpassava a minha retina. Minhas mãos formigavam na água. Lembrei-me dos dedos de Deborah no meu ombro e despi a camisa e lavei meus braços. Ao pousar o sabonete, seu peso ganhou vida na palma de minha mão; o sabonete produziu um som baixo e pegajoso ao assentar na saboneteira. Eu estava disposto a passar uma hora considerando aquele som. A toalha, porém, estava em minha mão, e minhas mãos poderiam estar apanhando o farelo das folhas de outoono se desfazendo em meus dedos. O mesmo acontecia com a camisa. Algo estava me demonstrando que eu jamais compreendera a natureza de uma camisa. Cada um dos seus odores (aquelas moléculas distintas) estava espalhado pela roupa de cama como um cardume de peixes mortos na praia, sua podridão, o bafo íntimao dessa podridão num fio que o ligava ao coração oculto do mar. Sim, tornei a vestir a camisa com a devoção de um cardeal acertando o chapéu – então acertei a gravata. Uma simples gravata preta de tricô, mas eu poderia estar encostando um navio ao cais; a gravata parecia enorme, um pedaço de corda de uma polegada bastante comprida para satisfazer as exigências de um complicado nó, meus dedos corriam pelas malhas desse laço duplo como ratinhos pelo cordame. E por falar em estado de graça, eu jamais conhecera tal tranqüilidade. Você já ouviu um silêncio em um quarto à noite ou um grande silêncio, sozinho, no meio de uma mata? Ouça, porque sob o silêncio há um universo em que cada silêncio isolado se intensifica.

De Norman Mailer em “Um sonho americano”

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